O Tai Chi Pai Lin nos leva a um encontro profundo com nossa natureza interior. E aprofundando essa conexão, percebemos que natureza interna e externa não são independentes uma da outra. Entre elas, há um livre fluxo de ar, de energia, de informação captada pelos nossos sentidos. A divisão está apenas na mente. É quando a mente se acalma e o corpo relaxa que esse fluxo para dentro e para fora se torna mais evidente.
Em momentos de pausa e prática em meio à natureza, eu me pergunto se os praticantes de modo geral são capazes de entrar nessa sintonia e sentir a conexão entre corpo, mente e natureza. Talvez, para alguns, essa ideia pareça um tanto quanto mística e dependente de uma habilidade extra-sensorial. Na verdade, não. Nós complicamos demais, mas a verdade é que é muito simples!
Conforme a tradição taoista, falar da natureza é falar da interação entre Céu e Terra — reconhecer as leis que operam essa dinâmica constante e que regem a vida. Sem recorrer a poderes místicos, mas usando apenas o nosso corpo e a nossa mente. O corpo é o veículo, a mente é o guia que dirige esse veículo. O corpo sozinho, seja quanto à postura ou ao movimento, é parte da natureza, mas ele necessita da mente enquanto presença para se integrar ao fluxo da natureza. A ponte quem faz é a consciência.
Precisamos, em primeiro lugar, de uma clareza sobre o que é Céu e o que é Terra. Terra é mais concreta e palpável. É o solo firme abaixo dos nossos pés, que nos ampara e que serve de suporte para o corpo físico. A Terra deve ser sólida e consistente — assim, podemos nos apoiar. Sem Terra, seja no nível físico ou psicológico, ficamos sem chão, sem bases e incapazes de nos sustentarmos. Sem Terra, aflora a emoção básica do medo, uma função instintiva que pede por segurança e estabilidade.
Céu é o espaço aberto acima de nós. Ele permite o movimento. Quando alinhamos o nosso corpo verticalmente com a cabeça (ponto VG20, baihui) em direção ao Céu, o corpo se organiza de modo a parmitir movimentos mais elaborados, liberando nossas mãos para explorar o mundo e manifestar a criatividade. Essas possibilidades que consquistamos com a postura vertical nos levam a um patamar de observação de mundo e de posicionamento que, ao longo do tempo, desenvolveu o cérebro humano de uma maneira muito especial. A liberdade de pensar para além do corpo físico, de cultivar virtudes sublimes que podem se colocar acima dos impulsos instintivos tem total relação com o Céu.
Uma vez tendo ativado a imagem simbólica do Céu e da Terra, não precisamos pensar em descrever essas duas dimensões. Partimos para asensação corporal.
A Terra começa com grounding (aterramento). Você apoia os pés no solo, sente que “tem chão” e descarrega o peso do corpo na sua base de apoio. A força de gravidade percorre o seu corpo e você sente o peso do corpo responder à gravidade com concordância, sem resistência. Isso significa relaxar.
Quando o peso afunda para a Terra, o Céu fica leve. Com a coluna alinhada, com o centro de gravidade (dantian) corretamente posicionado e afundado, os vetores de força internos do corpo se organizam e geram coerência. A partir do relaxamento e alinhamento, deixamos as articulações do corpo abertas, sem qualquer restrição de tensão ou compressão. O sangue, os fluidos internos e a respiração ganham espaço para circular sem impedimentos.
Quando esse processo todo é explicado, parece complexo, mas quando vivido, se torna simples. Precisamos praticar com presença e relaxamento — somente assim, Céu e Terra são assimilados internamente.
Marco Moura
Centro Dao de Cultura Oriental.

